Ao fim de todo este tempo (quase cinco anos!), resolvi voltar a escrever aqui, aceitei o desafio de um amigo cuja lembrança e nostalgia agradeço, do fundo do coração.
Confesso que, para já, nei sei sobre o quê. Quero encher o espaço negro de linhas significantes, tenho o desejo, mas falta-me o assunto. Perdi o jeito, perdi a capacidade, perdi o entusiasmo, talvez. Outros valores mais altos "se alevantaram"...
Mas nem o corre-corre do quotidiano posso culpar. Os meus dias são tranquilos, tenho tempo para parar e pensar, para olhar um pormenor, para fruir uma sensação. O muito para fazer nunca é tanto que me afunde num rodopio de actividade, porque quase todo esse muito é intelectual e não se pode obrigar a cabeça a pensar, muito menos a reflectir e a criar, quando ela se distrai e divaga. É preciso esperar e ser paciente. Com optimismo e sem desesperar, porque, mesmo quando estamos aparentemente distraídos, há sempre lugar no nosso cérebro para a reflexão, ele não pára de pensar nem quando descansa. Porque, felizmente para nós, o cérebro nunca deixa de trabalhar enquanto estamos vivos, ainda que estejamos a dormir. E as ideias fluem, confluem, reproduzem-se e metamorfoseiam-se no silêncio fecundo do espírito, até ao dia em que se nos revelam esplendorosamente, à luz da nossa consciência.
Aprendi a esperar e a ser paciente. Uma virtude de gente grande, como se sabe. E eu, que nunca me senti crescida, fico feliz por constatar isso mesmo: parece que finalmente cresci um bocadinho, pelo menos nisto.
Vejo os meus filhos e pergunto-me: saberão eles esperar um dia? Mea culpa: dou-lhes tudo, quero vê-los felizes, faço o que posso para lhes satisfazer desejos, realizar sonhos. E posso fazer quase tudo, por enquanto, esse é o problema. Por isso eles não querem esperar, para quê? Como é que esperar pode ser bom, se agora eu posso começar já a brincar com o meu dinossauro novo?
Bem tento explicar, sempre em vão. Fica-me o consolo de saber que ainda é cedo, são pequenos, irão aprender. Têm tempo... há que saber esperar que eles saibam esperar!
Sempre esta sensação de ser demasiado explícita e racional.
Falta poesia ao que escrevo, falta subtileza às minhas análises das coisas, falta ambiguidade aos sentidos que construo - falta permitir que esses sentidos sejam antes construídos por quem lê (ou vê) e apenas sugeridos por mim.
Admiro a originalidade dos outros. Surpreende-me sempre e está fora do meu alcance, como o voo de uma pássaro colorido. Falta-me garra, falta-me classe.
É assim com o que escrevo, o que desenho, o que fotografo, o que digo, o que penso. Falta a tudo um levantar do chão, nem que fosse apenas por um breve instante. Falta a tudo um pouco mais de pó, de sonho, de indefinição.
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Terceiro e último aviso: este blog já era! (Mas - e acrescentei isto a 08.08.2006 - tenciono continuar a escrever aqui qualquer coisita só para não deixar morrer a página, quando se justificar. Sempre que achem que não se justifica, por favor avisem!)
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Segundo aviso: este blog negro já me cansa a vista. Precisa-se de mais cor!
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Este blog já me começa a irritar. Estou farta de lamúrias. Qualquer dia mudo-me para outro... Isto é um primeiro aviso!
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Quando era pequena queria ser professora. Com paus de giz escrevia no beliche, a fingir que era o quadro, para alunos imaginários. Mais tarde arranjei uma caneta de quadro branco e escrevia no vidro da janela. Sonhava com o dia em que pudesse corrigir os trabalhos dos alunos e dar-lhes notas.
Agora, fico deprimida quando chega esta altura do ano. Se há coisa que eu detesto é dar notas. O estômago enrodilha-se-me numa bola amarga cada vez que tenho de entregar testes negativos. Sinto-me estupidamente envergonhada, como se a culpa fosse toda minha. Se eles não perceberam a matéria, parece-me que foi porque eu não soube explicá-la.
Para os alunos, naturalmente, não interessa nada que eu fique triste e que me sinta frustrada e impotente por não poder ajudá-los. Não os censuro, claro. Mas o facto de eles dispensarem, provavelmente, a minha compaixão, não quer dizer que eu não a sinta.
Já aconteceu oferecer-me para os ajudar a estudar para o exame de recurso, ou simplesmente para os ajudar a melhorar na expressão escrita, quando é nesse campo que falham mais. Dizem que sim, que aceitam a ajuda, mas depois desaparecem. E à bola amarga junta-se um desconforto ainda maior, causado pela perplexidade perante esta aparente indiferença. Porque será que não me procuram?
Não sei o que fazer.
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Sorrindo,
aproximou-se.
Já o tinha conhecido,
mas não soube como dizer-lhe
mais do que “prazer”.
Depois olhei-o vagamente,
enquanto falei.
Admirei-lhe o ar sereno
e solene, mas nunca contei
com o que ele me veio oferecer.
Sorrindo,
aproximou-se.
Na mão, o livro para mim.
Agradeceu a minha atenção,
os olhos brilhando,
no rosto a expressão de um saber
humilde, mas sem fim.
Sorri,
também eu.
Nunca pensei que um escritor
um dia me prestasse
uma honra assim.
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Hoje aproveitei o facto de 99% da população das redondezas estar a ver o jogo de futebol para ir até à praia. Parecia que tinha havido um aviso de que o mundo ia acabar. A diferença era a tranquilidade do ambiente e o ar de satisfação na cara das poucas pessoas com quem me cruzei. Como se houvesse uma alegre cumplicidade entre os poucos seres humanos que aproveitavam o sossego para usufruirem dos passeios, das estradas, da praia.
Eu e a minha filha divertimo-nos como nunca. Tomámos um banho de mar, deitámo-nos na toalha a ver dois papagaios-de-papel a rodopiarem ao vento e a admirar o areal vazio e as ondas suaves a quererem tocar-nos. Depois fomos a um café buscar um gelado. Tivemos de esperar que a funcionária se levantasse e viesse para trás do bar, porque estava a ver o jogo com os clientes. Mas ela sorriu-nos e não nos apressou. Comemos o gelado enquanto passeámos pelo paredão e viemos para casa pela mesma estrada deserta, como se o mundo fosse só nosso.
Devia haver mais jogos que pusessem toda a gente quieta e longe, de vez em quando.
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Sempre gostei do campo. Nunca vivi no campo, mas sempre senti que todos nós pertencemos ao campo e à natureza e que viver na cidade é contra-natura, um mal necessário que nos torna tensos e tristes.
Uma cidade pode ter algumas ruas bonitas, alguns prédios elegantes, alguns jardins tranquilos, que nos permitem esquecer o ruído frenético da azáfama poluente. Mas o conjunto é sempre cinzentão, agressivo, monstruoso. No campo, as aldeias podem ter algumas ruas tristes, algumas casas feias, alguns baldios com sucata, mas o conjunto é suave, pacífico, natural. As construções rurais estão integradas na paisagem, pertencem ali, cresceram lentamente, acompanhando o respirar da terra. As cidades parecem ter brotado de repente, como um cogumelo venenoso, impondo-se sobre a paisagem, obliterando-a.
Os cheiros do campo, quanto a mim, são sempre agradáveis de sentir. Porque são naturais, fazem-me regressar às origens. Mesmo os maus: a bosta de vaca é infinitamente mais suportável do que as cacas de cão que fedem ao sol nos canteiros da cidade.
No entanto, por viver na cidade, vejo-me obrigada a procurar nela coisas boas, que tornem o meu dia-a-dia mais agradável. E como o meu olfacto é bastante sensível, certos cheiros são suficientes para me causar boas e más sensações, para me pôr a recordar ou a sonhar. E, apesar de tudo, há cheiros que sinto na cidade que me fazem sentir bem. Gosto de respirar fundo quando passo perto dos oleandros aqui ao pé de casa, que rescendem a baunilha, ou quando passo por um modesto relvado acabadinho de cortar; gosto de passar por baixo de um estendal com roupa acabada de pendurar, cujo perfume é artificial, mas ainda assim agradável; gosto de sentir o aroma delicioso dos pães e bolos nos fornos das pastelarias com “fabrico próprio”, que às vezes chega ao lado oposto da rua; adoro o fio invisível de bom perfume que um rapaz engravatado vai deixando atrás de si, enquanto se dirige, apressado, para o seu destino; e gosto do cheiro campestre da erva seca que piso todos os dias quando atravesso um terreno aqui perto, de onde se vê o rio. São cheiros que me acordam do torpor urbano e que me fazem sentir ligeiramente mais viva e alegre. É bom.
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