Costa Monteiro, Caminhos Perdidos na Madrugada, Lisboa: Editorial Escritor, 1999.
Trata-se de um livro que, com prazer, li pela segunda vez, pouco tempo depois da primeira. De novo, um autor praticamente desconhecido do grande público, por razões que, elas sim, são bem conhecidas, embora estejam longe de serem justas. Mais uma vez, foi uma série de incríveis coincidências que fizeram vir ter às minhas mãos um exemplar deste romance, ainda por cima autografado...
Porque é que vale a pena ler este livro? Por muitos motivos, todos fortes e bons. Como todos os romances com “sumo”, tem muito de autobiográfico. A experiência do autor em várias frentes da Guerra Colonial permite-lhe contar, com vivacidade e verosimilhança, aspectos caricatos, chocantes, marcantes, ou simplesmente característicos, de um momento histórico importantíssimo e não propriamente longínquo, mas em relação ao qual muita gente nova (como eu!) sabe pouco ou nada.
Num ambiente social conturbado e frágil, em que alguns Portugueses – e também um carismático casal de britânicos – vivem em África, cada um com as suas preocupações, os seus anseios e os seus medos, há tempo para a intriga, para o romance, para a fina caracterização de certos tipos de personalidade e, sobretudo, para se tecerem importantes considerações sobre aquela guerra em particular, sobre a guerra em geral, sobre os Portugueses, sobre os Ingleses, sobre os filhos do Império Britânico e até sobre a vida humana e o seu sentido – ou falta dele.
Cativaram-me sobretudo os diálogos, que parecem transcritos de gravações reais, tal é a naturalidade das intervenções “sem papas na língua” de quase todas as personagens, cada qual com os seus bordões, a sua forma de ser e de se dar a conhecer através da linguagem.
Pareceu-me extremamente bem vista a forma como uma inglesa analisa a nossa “espécie” (“Os Portugueses são excelentes pessoas, mas acreditam que ser bom marido é ridículo e que ser bom funcionário é, no mínimo, deselegante. Parecem até sentir-se ameaçados quando alguém faz as coisas como deve ser.”) E fui agradavelmente surpreendida quando descobri que, mais à frente, uma portuguesa “apanha” a mentalidade típica dos britânicos (“Reconhecem mesmo que, do «outro lado do canal», existem seres muito aperfeiçoados, embora essa espécie animal se vá degradando à medida que se afasta do centro do universo, as ilhas britânicas...”).
Prendeu-me todo o conjunto de revelações – pelo menos para mim foram revelações – sobre a guerra que os soldados portugueses levavam a cabo naquelas paragens, sem ânimo e com o patriotismo, já de si fraco, minado pela atitude ingrata, interesseira e traidora da própria pátria. Com gravidade, um capitão extremamente lúcido alonga-se a explicar o que pensa, honestamente, da situação: “Lá no Puto já ninguém acredita numa vitória. Se calhar nunca ninguém acreditou. (...) Dizem que a Pátria não se discute, que se defende. Mas, cuidado!!! Desde que não sejam os seus a bater com os costados no mato! (...) Como é que quer que a gente convença estes desgraçados a arriscar a vida, se eles também estão convencidos de que foram apanhados pela tropa só porque são pobres ou não têm padrinhos?”
Ao longo das 185 páginas, são as personagens que apontam um dedo crítico a injustiças, a estranhas coincidências, a jogos sujos e à falta de escrúpulos e de valores morais dos vários agentes daquela “Triste guerra, em que se matavam maltrapilhos.” Os caminhos por elas percorridos levam, ainda assim, a um final mais ou menos feliz – o final possível para uns e o final desejável para o casal que, pela mão do autor, encontrou na ficção um destino bem mais aprazível do que aquele que, infelizmente, a vida lhe impôs.
Penso que este livro, que já não está – talvez nunca tenha estado, pelo menos em larga escala – disponível no mercado mais imediato, merece uma segunda edição, com uma divulgação à altura do seu interesse e do seu valor. A meu ver, precisa de uma revisão cuidada e atenta da sintaxe e da pontuação, que se justifica precisamente por ser inquestionável a relevância e a originalidade do conteúdo. Um texto que o público (que ainda lê) perde em desconhecer, como tantos outros que são preteridos, muitas vezes a más traduções de livros estrangeiros com menos qualidade e menos profundidade.
Hoje houve um almoço de família em casa dos meus pais, com os meus irmãos, cunhados e sobrinhos. Coisa normal...
Eu e a minha micro-família fomos os primeiros a chegar. A minha mãe estava atarefadíssima na cozinha, entre tachos, panelas e travessas. Percebi-lhe a ansiedade quando começámos a invadir o seu laboratório gastronómico para a cumprimentar: estávamos a ocupar espaço útil e a distraí-la. No vocabulário dela, a EMPATAR.
Deixámo-la sozinha e procurámos o meu pai, que estava no jardim, para o cumprimentar. Enquanto conversávamos, o meu irmão, mulher e filhos chegaram e, dali a nada, havia requeijão, pão fresco e atum seco marinado com pimentos para petiscarmos. Naturalmente, fomo-nos alambazando... Entretanto, vou à cozinha aquecer uma sopa, que levei, para a minha filha. A minha mãe diz que está muito admirada por a minha irmã ainda não ter chegado. Será que se esqueceram? Será que o genro fez confusão? Será que pensaram que era só para irem depois do almoço? E eu: mas porque é que não lhe telefonam? Resposta azeda: ela, que estava a fazer tudo sozinha, não podia telefonar! Já tinha pedido ao pai duas vezes, mas ele não tinha ligado nenhuma...
Voltei lá fora, onde as “moscas” gravitavam à volta dos aperitivos. Marido, pai e irmão de copo na mão, conversavam animadamente. Daí a pouco, aparecem a minha irmã, o marido e os filhos, com um amigo do filho. O atraso era normal. A mãe aparece cá fora, finalmente, com um ar ligeiramente mais descontraído. Mas logo volta para dentro, para finalizar a refeição. Eu, que levei uma salada, nunca mais me lembrei de ir enfeitá-la com os coentros da horta. De vez em quando ia à cozinha, mas era para verificar o estado de descongelação da sopa, que rodava preguiçosamente no microondas. Normalmente até ajudo, mas hoje resolvi fazer-me de visita. Afinal, quando convido a família para ir a minha casa (coisa rara, confesso), também não peço – nem quero – que me ajudem. E depois, se querem que fiquemos dentro de casa a ajudar, porque servem aperitivos lá fora?!
O pior foi quando, de repente, a minha mãe começa a gritar, quase a chorar, porque se lembrou de abrir o forno, onde uma tarte de maçã estorricava há algum tempo. Naturalmente, a culpa era das distracções, que a impediam de se concentrar nas várias tarefas que tinha pela frente. Eu, a minha irmã e a minha cunhada tratámos logo de minimizar a coisa, que até sabia melhor assim tostadinha, que dava perfeitamente para afastar a parte queimada no prato de cada um, que a tarte até era de compra, por isso não era tão grave como um doce caseiro, que tivesse dado muito trabalho a fazer.
Finalmente, o almoço ficou pronto. Mas ainda foi preciso dá-lo às crianças, ou esperar, de estômago impaciente, que elas comessem. Só depois nos sentámos à mesa. As conversas trazidas lá de fora foram mantidas entre os interlocutores e, como resultado, o almoço decorreu sob um autêntico fogo cruzado de diálogos surdos. Ao meu lado, o meu cunhado falava para mim, mas eu não conseguia ouvi-lo, porque a minha mãe me perguntava qualquer coisa e eu ainda estava a tentar seguir a conversa que tinha iniciado com o meu irmão, por cima da conversa da minha irmã com o meu sobrinho...
Cada um de nós só se apercebia do caos da situação quando se calava e ficava a tentar seguir as conversas dos outros, o que era, naturalmente, impossível. Ao café, os ânimos acalmaram-se. Mas era natural: as cabeças estavam cansadas do barulho e o vinho surtia os seus efeitos apaziguadores... Ainda assim, todos continuavam a ter alguma coisa para dizer. É precisamente por isso que não conseguimos ter conversas normais: toda a gente quer falar, mas ninguém está muito interessado em ouvir. Não foi Montaigne que disse qualquer coisa como isto?: “nenhum homem ouviria o outro se não estivesse à espera da sua vez de falar.” E, no nosso caso, ninguém disfarça!
No entanto, há alguém que, surpreendentemente, consegue captar a atenção de todos os outros: o meu cunhado que, mesmo em voz baixa, olha para mim e diz, a sorrir e com as sobrancelhas arqueadas, com ar de duende travesso: “uma anedota!” E eis que se faz silêncio, porque todos sabem que as anedotas dele valem a pena. Aqui fica, para finalizar:
A professora primária diz aos alunos: «meninos, para a próxima aula vão ter de estudar as características de setenta animais!» Os alunos ficam estupefactos: «setenta?!». A professora continua, indiferente: «Sim! Depois eu vou fazer perguntas, por exemplo assim: Joana, o que é que dão as galinhas?» A Joana responde: «Ovos?» E a professora: «Exacto! Estão a ver? Ou então posso perguntar: Pedro, o que dão as ovelhas?» E o Pedro responde: «Lã!». A professora, satisfeita, continua: «É isto, perceberam? Ou, por exemplo, posso perguntar à Rita: Rita, o que é que dão as vacas?» A Rita, então, responde: «Trabalhos de casa!»
Todos rimos a bom rir. E, por momentos, houve uma paz alegre muito simples e muito boa.
Ler todos os dias, escrever todos os dias. A ambição mantém-se, mas nem sempre a prática lhe faz justiça. Tenta-se. A esperança é a última coisa a morrer.
Há, no entanto, um obstáculo: se é verdade que temos, hoje em dia, a satisfação de podermos publicar, no pleno sentido da palavra, tudo o que nos apetece, por outro lado a banalização da escrita através da Net, que faz com que todos possamos ser autores – contistas, cronistas, poetas e sabe-se lá que mais – leva-nos a todos de novo, paradoxalmente, ao anonimato.
E depois, vivemos numa era em que a comunicação social áudio-visual exerce um poder enorme sobre as pessoas, de tal forma que só são aceites, admirados, lidos, enfim, só vingam aqueles que APARECEM. E bastante!
Assim, e para realizar o meu sonho de publicar alguma coisa sem ser na Internet, talvez deva começar por participar num concurso na TV...
Sérgio de Sousa, Trilha Encoberta, Lisboa, Editorial Escritor, 2005.
Encantou-me, prendeu-me, comoveu-me este livro de um autor desconhecido de todas as pessoas que me viram lê-lo, e até de mim própria, se não fossem as felizes coincidências que mo fizeram chegar às mãos.
São vários os motivos que me levam a considerar esta leitura como uma das mais marcantes que já fiz. Eis os que consegui verbalizar:
- tocou-me o comovente retrato de um homem visto por todos (e até, em certa medida, por ele próprio) como um falhado, impiedosamente menosprezado pelos filhos, a quem é oferecida a dádiva de um amor incondicional, que contudo não deixa de agudizar o seu sentimento íntimo de desamparo, de desespero, de desadequação;
- agradou-me a surpreendente facilidade com que o autor penetra no universo feminino, para não só o descrever, nos seus mais característicos e íntimos pormenores, como que visto de dentro, mas também para olhar e analisar o mundo através da sensibilidade de uma mulher;
- achei interessantíssimas as considerações sobre a leitura, os livros (impressos) em geral e os textos literários em particular. Condena-se, como não podia deixar de ser, a crise em que se encontra o livro e a leitura, face ao desinteresse crescente de uma sociedade cada vez mais preocupada com o bem-estar físico e o prazer imediato. Mas também se discute o que faz com que um texto seja literário e igualmente – questão que decerto seria particularmente relevante para o autor – o que distingue os grandes livros dos livros “menores”.
- surpreenderam-me as breves mas acertadas análises sobre a política nacional e as consecutivas “desgovernações” que conduzem o país para um abismo social, cultural e financeiro. Paralelamente, achei muito pertinentes as discussões entre as personagens sobre ideologias políticas, no contexto do seu empenho, algo serôdio mas ainda assim louvável, em descortinar soluções para os problemas da actual sociedade (só uma espreitadela: «Não aceitava que se omitisse um projecto de dignidade para a humanidade, e perfilhava o que se lhe apresentava como a única alterantiva pelo menos teoricamente viável. E sempre era preferível envelhecer com uma ideia, do que sobreviver sem nenhuma»).
Enfim, trata-se de uma leitura que eu aconselharia, se não soubesse que é muito difícil, senão impossível, encontrar este livro à venda nas livrarias. Essa é, aliás, uma ironia que parece saída do próprio romance, cujo protagonista masculino, ao que parece, será inspirado no editor da obra...
O amigo que me emprestou o seu exemplar, insistindo que a leitura valia a pena, questionou-se: “como é que este tipo não é conhecido?”
Naturalmente, ele sabe que Sérgio de Sousa não é um escritor conhecido porque é um homem que nunca ninguém viu na televisão (não é um vip), cujos livros são publicados por um editor obscuro (que se dá ao caro luxo de editar as primeiras obras de escritores que ainda não o são), e provavelmente são lançados sem convidados famosos e sem mediatização, passando provavelmente despercebidos aos críticos. Mas penso que, com aquela pergunta, o meu amigo queria encontrar uma justificação que permitisse perceber se, no texto em si, haveria porventura marcas de alguma inferioridade.
Tendo encontrado vários e fortes motivos, no texto, para o recomendar e até para me apetecer fazer uma segunda leitura, não deixei, no entanto, de lhe encontrar alguns defeitos. Há falhas na pontuação, a sintaxe é por vezes demasiado complicada e desnecessariamente difícil e apanhei até um erro de acentuação (“alcoóis”). Contudo, penso que a riqueza e pertinência do conteúdo merecem bem uma revisão atenta e até uma segunda edição, numa casa “prestigiada”. Há, no entanto, uma incongruência que considero grave e que – estou certa disso – nenhum “grande” escritor cometeria: uma personagem que no capítulo 8 se chama Mário e que, inadmissivelmente, no capítulo 30 surge como Miguel! Em todo o caso, também não é nada que uma segunda edição não resolva... e continua a merecê-la, seja uma obra maior ou menor.
Já li muitas vezes livros que falam sobre o valor inestimável dos livros. Inúmeros autores, sobretudo romancistas, se referem, nas suas próprias obras, ao poder e à magia que os livros podem exercer sobre nós, se nos deixarmos seduzir.
Confesso que sou bastante preguiçosa para começar a ler, mas quando pego no livro “certo” para mim, em determinado momento da vida, fico extasiada. Sinto-me quase como se ao longo de toda a minha existência tivesse caminhado na direcção desse livro, para ter a experiência de o ler. Como se aquele texto tivesse sido escrito de propósito para mim, mas ao mesmo tempo fosse um enorme privilégio poder segurá-lo nas mãos.
Fico obcecada pela leitura e mal posso esperar por voltar a ela, sempre que me vejo obrigada a interromper essa viagem no tempo e no espaço que me permite abstrair-me de mim e de tudo à minha volta. Acabo por começar a levá-lo comigo para todo o lado. Tornamo-nos companheiros, cúmplices, amantes. Um livro consegue ser um objecto extremamente sensual!
Acabo de regressar de um almoço com os meus avós, que têm ambos mais de noventa anos. Apesar de serem pessoas sociáveis, habituadas a conviver e a conversar, não é fácil interagir com eles.
Há quem diga que as pessoas, quando chegam à terceira idade, voltam a ser crianças: tornam-se de novo dependentes, vulneráveis, muitas vezes incapazes de tomarem conta de si próprias. Depois, existe o problema da solidão e do abandono. Mas os meus avós, felizmente, ainda conseguem viver sozinhos, mais ou menos independentemente, e não se podem considerar abandonados pelos filhos ou pelos netos.
Ainda assim, cada vez me custa mais estar com eles. Dói-me vê-los mais encurvados, mais sumidos, mais ausentes, a cada dia. Custa-me que cada vez ouçam e vejam pior, que cada vez lhes seja mais difícil entrarem e saírem do carro, que fazerem as coisas que antes lhes davam prazer seja agora, para eles, um sacrifício cada vez maior.
No ano passado, uma aluna minha fez uma belíssima apresentação na aula sobre o tema dos velhos. Propositadamente, abordou o lado mais negro e doloroso da questão, pondo-nos a todos a chorar de comoção (incluindo a ela própria), tal era a dureza das verdades com que ela ali nos confrontou. Foi um desses momento inesquecíveis em que o professor se encolhe e fica em silêncio, profundamente tocado pela capacidade do aluno para, também ele, lhe dar uma grande lição. Naturalmente, enquanto a ouvia a apontar o dedo às gerações mais novas e à sociedade em geral, por não respeitar os velhos nem os tratar condignamente, lembrei-me dos meus avós.
Podia visitá-los mais, ajudá-los mais, acompanhá-los mais. Porque não o faço? Não posso dizer que me falta tempo, não tenho coragem para verbalizar mentiras. Não o faço porque me custa vê-los assim. Porque sei que, cada vez que estou com eles, pode bem ser a última. Porque eles me lembram, quando os vejo, que os meus pais também vão ser assim. E porque, cá dentro, no meu íntimo, estou a ver-me a mim, quando chegar a minha vez.
As férias da Páscoa estão-me a saber que nem ginjas!
Sim, tenho aulas para preparar. Mas, por incrível que pareça, é isso mesmo que eu gosto de fazer. Nunca percebi como há professores que são capazes de andar a repetir as mesmas matérias da mesma maneira, usando os mesmos materiais pedagógicos, ano após ano. Santa impaciência! Ainda bem que eu não consigo...
Sim, tenho imeeeeeeenso trabalho. Todos os anos reformulo os programas e tento adaptar os exercícios a cada turma, ou mesmo criar novas actividades, contextualizadas e actuais. Não propriamente por acreditar que essa é uma das muitas responsabilidade do professor (mas acredito). Acima de tudo, trata-se de uma necessidade, de algo que vem cá de dentro e que me leva a agir mais por instinto do que propriamente por convicção. Não saberia fazer as coisas de outra forma.
Uma vez, há muitos anos, cheguei a fazer um teste personalizado de Literatura Portuguesa para cada aluno de uma turma pequena: a cada um atribuí um soneto de Camões com o qual me pareceu que ele, ou ela, se identificaria mais. Nem quero saber quantos professores achariam isso ridículo, estúpido, anti-pedagógico ou prepotente. A mim, pareceu-me que era simplesmente simpático e fi-lo com a melhor das intenções. Mas nunca cheguei a perceber o que os alunos acharam da ideia. Talvez lhes tenha sido indiferente...
E assim continuo, ingenuamente, a trabalhar para aquecer!
Esta noite, estranhei a ausência de um dos meus alunos mais assíduos, que é também aquele que conheço há mais tempo, nesta turma. Não fiz comentários, presumi que ele estivesse fora, em trabalho. No fim da aula, porém, fui informada, pelos colegas, de que ele tinha desistido do curso.
É sempre com tristeza que um professor recebe uma notícia destas. Cada vez são mais raros os alunos bons e interessados, e este era ambas as coisas. Não sei os motivos que o levaram a tomar uma decisão que deita por terra todo o investimento – financeiro e intelectual – de um semestre. Mas não deve ter sido de ânimo leve que ele pôs termo a um percurso que era claramente promissor: tinha tido excelentes notas e tudo indicava que continuaria a ser um caso de sucesso.
Terá as suas razões. Só posso dizer que fico bastante desgostosa, pois a sua presença era, para mim, reconfortante. Uma pessoa inteligente, que contribui da melhor maneira para a conversa que se gera nas aulas só pode ser recordada com saudade. Sem menosprezar os colegas, que serão tão simpáticos e capazes como ele (mas que ainda não conheço tão bem), quero apenas deixar aqui o meu honesto e humilde elogio a um aluno que representou, para mim, um dos maiores desafios, no melhor sentido do termo. Um dos poucos que me ensinaram mais do que aprenderam comigo! Um dos poucos de quem nunca me esquecerei.
Muitas vezes, quando acaba uma aula, fico a pensar que falhei.
Sei que não tenho de me culpabilizar por TODO o desinteresse dos alunos, mas alguma parte pode bem estar relacionada com a minha metodologia, com a matéria que escolhi, com a minha postura, a minha voz... sei lá!
Só sei que isto acontece cada vez com mais frequência. Quando não estão cansados e desanimados logo à partida (esta semana diziam “Ó professora, não é justo! Já devíamos estar de férias!”), os alunos começam a dispersar-se, a conversar, ou então ficam a olhar para mim com ar de desgraçadinhos, à espera que eu tenha pena deles e os deixe sair mais cedo.
Dos poucos que me ouvem, por cima das conversas dos colegas – confesso que não tenho feitio para exercer autoridade e por isso limito-me a falar cada vez mais alto – nem todos estão realmente a pensar naquilo que eu digo. E dos poucos que estão a pensar, nem todos conseguem, depois, reformular o que eu disse por outras palavras.
Sobram uns dois ou três por turma, que me fazem respirar de alívio. Mas é um alívio muito relativo...
Depois de ter lido o Eduquês em Discurso Directo, do Nuno Crato, pelo menos agora percebo melhor como é possível que tenham chegado ao ensino superior neste estado: a escrever pessimamente, sem saberem estar nas aulas, sem o mínimo respeito pelos docentes, sem quererem pensar, sem saberem estudar.
Mas há sempre a dúvida que fica: se eles até têm bom aproveitamento noutras cadeiras...
Nem tudo são espinhos.
Nem tudo são espinhos.
Nem tudo são espinhos.
Repete, até à exaustão.
Repete, até aprenderes.
Porque é que tens de te queixar, constantemente? Não sabes a sorte que tens? Não sabes o azar dos outros? Não tens conseguido realizar todos os teus sonhos, ao longo da vida? O que é que te falta? Sabes dizer o que é? E, sabendo o que ainda te falta, achas que não és capaz de o conseguir? Então! Se és capaz, luta! Luta enquanto podes. Luta, antes que te arrependas de teres passado os melhores anos da tua vida a lamentares-te.
Sorri mais, ama mais, luta mais.
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